~#APRECIADORES DO ABISMO#~

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

~☥Desassossego☥~


úlia estava deitada sobre o catre da cela branca. Ela estava presa a uma camisa de força e seus olhos buscavam o vazio das recordações: da velha casa onde vivera com o pai e uma madrasta que ela não gostava.

Muitas vezes costumava sair para o Bosque das Flores durante a noite. Chegava à trilha que levava ao riacho. Sentada na praia Júlia sempre esperava os pirilampos com suas luzes verdes acendendo e apagando repetidas vezes como se dessem sinais de alerta. Era nesse momento que sua mãe, morta há cinco anos, aparecia em forma de fada voando entre a luminosidade dos insetos.

“Seu pai está feliz. Eu estou feliz, Júlia”, dizia enquanto ziguezagueava em volta da filha. Júlia ouvia e esboçava um sorriso. Se sua mãe estava feliz porque seu pai estava feliz no novo casamento por que ela também não deveria estar? Na maioria das vezes, quando voltava para casa, encontrava o pai na sala de jantar, sentado à mesa com a madrasta.

Júlia dizia: “Papai...Mamãe está feliz porque você está feliz”. O episódio repetia-se a mais de dois anos e tornou-se um transtorno para o homem, que não achou outra solução a não ser internar a filha de 15 anos no Asilo Nossa Senhora das Dores. Quando os enfermeiros chegaram vestidos de branco Júlia ficou apavorada. A injeção foi a solução encontrada para acalmar a jovem. Desde aquele dia nunca mais que Júlia deixou de tomar injeções e ingerir comprimidos de todas as cores.

Desde que fora internada continuou a ver a mãe todos os dias e durante o dia inteiro: “Se seu pai está feliz eu estou feliz”. Cássia aparecia para Júlia, sua filha adorada, repetindo a mesma frase.


quarta-feira, 3 de março de 2010

~#☥A REBELIÃO ☥#~


A REBELIÃO

Não estou entendendo o que está acontecendo aqui!
As coisas estão vivas... e revoltadas! Meu escritório está escuro.

As luzes piscam insistentemente. O computador desligou sozinho e eu perdi muitas páginas de meu livro. Droga, vou perder o prazo!!! Vou para meu quarto... escrever a mão. Peciso escrever, preciso! Levanto-me, irritado com essas manifestações, quero sossego! De repente, cadeiras começam a se movimentar ameaçadoramente em minha direção... Socorro! Tento correr e sair da sala. A porta bate estrondosamente. Violento vento trava as janelas. Estou preso! De onde vem essa fumaça agora? E os vultos? O que são? Sinto-me levantar no ar. Estou sufocando. Quem está me matando? Alguma coisa ouviu meu pensamento. Ouço um sussurar, que arrepiou-me até a alma: morte...morte...morte...

Sou arremessado na parede... "fale sobre a morte... sobre a morte..." Todo o meu corpo dói muito. Agora, além da névoa, dos vultos, também sinto um calor insuportável. Parece que estou no inferno! Minhas roupas estão fervendo... Sinto dores horríveis... Alguma coisa começa a gotejar sobre mim... Fede! Socorro, estou sufocando... Quero viver! Sou um escritor! Quero viver... Fecho meus olhos e espero a morte... Nova dor, fortíssima... Não sei quanto tempo passou, mas quando abri os olhos, fiquei realmente surpreso... Estava no escritório, sentado diante do computador, tranquilamente redigindo meu novo livro de terror... À minha volta, tudo era paz e ordem... Teria sonhado? Coisa estranha, muito estranha...
(Thera Lobo)


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

~#FLORESTA PROIBIDA#~

Caroline mudou-se para uma casa beirando uma densa floresta.
Ao descarregar suas coisas, um globo caiu e rolou para a floresta ia buscá-lo, quando repentinamente é agarrada por um velho; gritou e seus pais correram para socorrê-la; o velho então disse: é proibido entrar na floresta maldita, quem ousa, não volta! Caroline riu, mas o velho continuou: à 200 anos, uma mulher foi abandonada pelo noivo, que fugiu com sua melhor amiga, desesperada, fugiu para a floresta e enforcou-se no carvalho retorcido; dizem que na hora da morte fez um pacto, com o Abandonado, levaria todos que pudesse entregando suas almas e sangue, pela oportunidade de achar os dois culpados de sua miséria, e desde então, quem entra não volta. Caroline debochou do velho supersticioso, mas ele, ao partir, ainda gritou:

Preveni você!

À noite, Caroline só pensava em explorar a floresta e provar que o velho era doido. Ao perceber que todos dormiam, partiu.
Vagou, feliz concluindo que o velho era doido e ela estava certa, menina da cidade se assustar com folclore?! Até que farfalhar de pé nas folhagens a sobressaltou! Escondeu-se num tronco oco e então viu...uma mulher de vestido rubro, ou que parecia banhado em algo sanguinolento que deixava odor nauseabundo....ela estava atenta a algo, repentinamente salto e com garras infernais, agarrou um gamo, cravou suas presas enormes e potiagudas, estraçalhando o pescoço do animal que contorcia-se no solo,empapando-o de sangue.
Enlouquecida de terror, Coroline quiz fugir, mas pisou num galho seco, ao elevar os olhos, viu a criatura olhando diretamente para ela, olhos rutilantes, boca escorrendo sangue enquanto sorria famélica, sugeitando o gamo nas garras.
Caroline correu o mais que pode, mas ao virar-se para abrir a porta deu de cara com "ela" que faminta olhava-a,como um especto infernal, enquanto sangue escorria de sua boca ao colo; disse a Caroline, congelada de pavor: - Devorarei tua alma hoje! Agarrou Caroline e arrastou-a pelos cabelos até a Árvore dos Malditos no centro da floreta, sempre sorrindo com dentes bestiais, acariciou os ruivos cabelos de Caroline e a beijou nos lábios, sugando sua vida e entregano sua alma ao Abandonado, ao poucos Caroline secava como uma múmia, antes do fim a criatura trevosa, arrancou o coração e o devorou ainda pulsante, e agora Caroline não passava de um amontoado de gravetos, como muitos outros, aos pés da retorcida Árvore dos Malditos.

Nunca mais se teve notícias dela, apenas lascas e marcas de unhas arranhando do piso à floresta.

(Adriana La Terza)



domingo, 31 de janeiro de 2010

~☥ DRICA☥~


Ola! Sejam todos bem vindos a dor e a tristeza de minha vida.

Prazer meu nome é Andréia, mas podem me chamar Drica todos me chamam assim.

Nasci não sei onde, vinda não sei de onde e vivi nem sei porque.

Me lembro pouco de minha infância, fui em um orfanato largada logo que nascera pelo menos foi o que me disseram, daquele tempo só lembro da dor e de minha tristeza, nunca fora como as outras crianças nunca tive alegria da fonte que os outros tiveram, me lembro sempre andar sozinha sempre beirando ao abismo de meu ser durante toda minha tormentosa infância.

Aos oito anos fui adotada por um rico casal de origem nipônica, eles possuíam uma linda pousada no litoral, cresci neste mundo estranho tendo tudo de bens materiais, mas sem nunca ter tido amor, meu pai sempre ocupado nunca tempo o teve de me cuidar, minha mãe nunca me aceitou como se fora dela filha pois nunca quererá adotar a uma criança.

Na fina escola particular donde estudei sempre fora discriminada, tratada como bastarda, sempre eu fora uma criança triste, sem amigos, quase sempre isolada vendo meu destino sem norte, sendo pelas sombras absorvida dia a dia pouco aos pouco.

Quando ao Ensino Médio eu terminara, quis mudar, quis tentar ser diferente mudar a vida ser mais normal, briguei com meus pais fui para o sul tirar facu, de Veterinária, porque Veterinária bem a única coisa que realmente tive em minha infância de boa lembrança foi meu cachorro Fênix, ele fora minha única companhia durante anos de tétricas noites em soliguidão. Por isso acho que esta seria a mim a melhor escolha já que nunca conseguira me dar bem com as pessoas pelo menos os animais me entendiam, Fênix era como eu temerário, quieto e triste pequeno sempre se escondendo pelo cantos nem latir latia mas me fazia companhia sempre que estava triste ele me vinha se rosando na minha perna, com uma carinha de pidão essa creio fora a melhor lembrança de minha infância do meu único real amigo que dessa o tive.

Mas na facu nada mudou, não me inturmei com o pessoal, sempre sozinha comecei a sair, muita balada muita bebida, muito garoto muito boyzinho, doce ilusão de ser querida ser desejada já que o amor nunca me encontrara, quase no fim da minha facu encontrei alguém me apaixonei desta vez achei que seria diferente daria em fim pelo menos uma vês certo pra mim. Mas me iludi ele me traiu fugiu com outra e me amargurei acabou meu curso voltei pra casa, mas a pousada era muito isolada era triste no inverno tinha movimento só na época de verão de carnaval chorei pra papai me deixou trabalhar fora.

Agora era adulta independente, fui trabalhar na capital tanta gente num vai e vem quem sabe agora eu pudesse realmente me encontrar, pura ilusão realmente conheci muita gente na capital mas sei lá porque cidade grande é sempre assim, muita correria nem sei porque e nem se vê quem se esta por perto nunca soube o nome dos meus vizinhos de apartamento passou o tempo e conhecia só o porteiro Cassio e minha secretaria luiza do consultório. Oh! Triste sina de ser sozinha. Na capital consegui ser mais sozinha ainda em meio a multidão que no interior onde morava quase isolada só com meus pais.

Então veio a tragédia meus pais morreram de acidente o carro deles caiu em um desfiladeiro no Natal estavam vindo me visitar pois eu tive curso ate a véspera do natal naquele ano e não pude ir pro litoral naquele feriado era pra ser uma surpresa pra mim. Então larguei tudo voltei ao litoral assumi a pousada vaguei sozinha por muitos anos, inócua demente, absorta a minha lamentação e um mar de ilusões que tornou-se meu viver, entregue a tristeza passava as noites de bar em bar, bebendo ate cair saindo com tudo que é boyzinho que aparecia, virei a escoria não tinha mais pudor nem amor próprio. Anos e anos sem ter alguém nem pra me dar parabéns no meu aniversário se pode fazer uma festa sem dinheiro mas sem amigos não.

Hoje é meu aniversário estranhamente acordei alegre é um belo dia lá fora um sol radiante despertei com o toque do sol em meu rosto. É feriado aqui em minha cidade por isso hoje estou sozinha na pousada. Abri as cortinas de cetim no saguão de entrada e avistei ao mar tão calmo e límpido, resolvi banhar-me foi tão bom senti limpar-me a alma me senti tão leve, tão liberta mas estranho não me lembrara de como eu voltei a pousada naquele noite lembro-me da boate estava lotada bebi horrores, sai quase ao amanhecer me lembro entrar no carro mas do resto...

Bem deixa pra lá está tão bom hoje o dia que que importa foi só mais um porre e nem com ressaca eu fiquei. Voltei pra pousada avistei tantos carros, tanta gente que a anos não via. Fiquei alegre será que vieram me dar uma festa surpresa corri ate a entrada da cozinha da pousada.

Gritei!

- Ola André;

- Ola Fabio;

- Nossa a quanto tempo tia Eulália.

Mas estranho ninguém sequer me olhou parecia que eu estava invisível. Todos estavam se dirigindo a capelinha da pousada, antigamente a pousada tinha sido uma casa de Senhor de Engenho com muitos escravos ainda tinha o moinho onde era feito o açúcar pelos escravos a senzala e a capela sempre mantivemos se sabe turista gosta de coisa antiga bem voltando ao evento chegando a capelinha fiquei abismada por ver tanta gente muitos chorando entrei na porta todos sentados e vi minha secretaria a discursar.

- Que posso dizer da Drica, sempre foi uma alma boa, sempre preferiu se sacrificar a magoar alguém, é o ombro pra onde corria nas noites de tristeza e a pessoa que sempre esteve lá quando precisei, hoje digo com toda a certeza que te amo Drica você é sempre será a melhor amiga que tive.

Meus olhos encheram-se de lágrimas, corri para dar um abraço na Luiza, quando subi no Altar avistei um corpo.

Gritei!

-Nossa é um velório.

Levantei ao véu que cobria ao rosto do defunto. E fiquei paralisada vendo que a morta era eu.

Passei o dia ali olvido as declarações de meus ex-colegas de escola e profissão. A minha cozinheira da pensão sendo interrogada pela policia, dizia o investigador passando o laudo da morte.

- A Andréia Fuchiru, morrera após acidente de trânsito cito ao quilometro 30 da rodovia Almir Pasquali por volta das 6:50 Hs da manhã de Sábado dia 27/01/2010 sozinha e segundo o laudo com vestígios de embriagues provável causa do acidente dormira ao volante.

Acompanhei ao meu enterro numa linda cerimônia ali mesmo na pousada eu fora enterrada de frente ao mar junto aos meus pais.

No cortejo fúnebre haviam mais de 300 pessoas via a sinceridade da tristeza por minha morte nos olhos delas. Enfim senti que tinha deixado algo de valor em meu legado terreno, nunca imaginei que faria falta pra alguém ou que tinha tanta gente que se importa-se comigo.

Agora posso enfim partir em paz, dar alento e descanso a minha alma.

(Felix Ribas)


sábado, 9 de janeiro de 2010

~ ☥ INTERCÂMBIO RACIAL ☥ ~


* Parceria de Ravenna Raven e M. D. Amado


Não havia sangue em teu corpo.
E não me refiro a feridas ou sangue de outras pessoas. Realmente não havia sangue circulando em suas veias. Teu olhar era tão negro quanto a própria cor de teus olhos. O toque gelado da ponta de seus dedos em meu rosto, me preenchia com uma sensação mista de medo e tesão. O beijo, ao contrário, era inexplicavelmente quente. Muito quente. E digo isso também de forma figurada.


Não me recordo como fui parar em seus braços. Minha última lembrança de vida é a de estar voltando para casa, de madrugada, cochilando no metrô. A última voz humana que ouvi foi do condutor anunciando a estação Praça da Árvore. Depois disso, não consegui mais abrir os olhos por um bom tempo. Sentia frio. Muito frio. Sabia que estava deitado e nu, sobre alguma superfície áspera e morna, contrastando com o ambiente gelado ao meu redor. Quando ouvi sua voz em meus ouvidos, consegui então abrir os olhos e pude vê-la pela primeira vez. Pavor e excitação. Beleza e monstruosidade... Ainda não consigo definir bem o que sinto quando a vejo.

Ela me tomou pelas mãos, me ergueu e me disse algo que nunca mais poderei esquecer...

“Como é estar do lado errado da estaca, caçador?” – a criatura transmutada em mulher solta um sorriso pelos lábios vermelhos. “Bastante ousado, mas um tanto imaturo.”

Senti-me como um rato entre uma parede e um faminto felino de saias. Todo o meu ser pedia para empurrar esta mulher e sair correndo com todas as minhas forças, mas algo me impedia de desviar os olhos dos seus seios e isso estava evidente no volume crescente em minhas calças. Esta resposta me causou certa confusão, pois nos meus estudos os vampiros eram tidos como criaturas anaeróbicas e assexuadas.

“Os seus estudos são meramente humanos, caçador”. – disse como se lesse meus pensamentos. “O real entendimento da nossa raça não se encontra em grimórios ensebados de abadias ou círculos secretos de velhos anciãos. Para entender nossa espécie, olhe-se no espelho e veja sua história. Matando seu próximo, enganando, pilhando. Sua espécie é tão semelhante a nossa que poderíamos conviver lado a lado... mas quem domina o mundo hoje?”

Sinto um gosto amargo na minha garganta e tento articular uma desculpa, que agoniza e morre. Levanto-me e no mesmo momento uma força invisível me arremessa ao chão. A vampira continua sua história.

“Hoje você caminhou um passo glorioso no entendimento dos vampiros, caçador. Sabe o que somos, sente a nossa sede e agora vai sentir como é nossa morte. Pense nisso como um intercâmbio racial”. – a vampira então quebrou o assoalho como se fosse uma placa de isopor e saltou dentro do buraco, levando consigo a cortina pesada e empoeirada do quarto.

O sol invadiu o recinto como uma fera assassina e o caçador mal teve tempo de se esconder antes de explodir numa nuvem de cinzas negras. De dentro do buraco, a voz suave da vampira ecoava pelo quarto abandonado como se fosse uma espécie de maledicência.

“Vampiros... humanos... quem são os verdadeiros monstros”?

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

~☥ VINDE A MIM AS CRIANCINHAS ☥~


Ainda me arrepia só de pensar em tal episódio...

Minha família tinha se mudado para uma cidadezinha do interior bem retirada, apenas turistas passavam vez ou outra por lá.
Fomos morar num antigo casarão o qual meu pai havia adquirido num leilão, apesar de termos ido contra a idéia de morar no local, mas meu pai alegando precisar de descanso acabou nos convencendo.

Ele dizia que ali poderia sentir finalmente o cheiro do mato, do mar e o canto dos pássaros pela manhã estando enfim longe de toda aquela parafernália urbana e é claro, da poluição e outras coisas da cidade grande. Então minha mãe, meu irmão e eu concordamos relutantes em irmos com ele.
Uma semana depois, quando tudo já estava em seus devidos lugares, meu irmão Josué e eu resolvemos sair para explorar as redondezas do terreno que era realmente grande.
Era uma tarde abafada, de ventos quentes de verão.
Desobedecendo às ordens rígidas de minha mãe para que não fossemos longe devido à hora e o tempo que se fechava, caminhamos pelo quintal imenso da casa.
Mangueiras cobriam boa parte do terreno com suas sombras e me perguntava quem venderia uma propriedade inteira num leilão e tão barato? Lembro-me de ter feito essa pergunta a minha mãe e ela me disse que a casa pertencia a um senhor muito velho que não possuía filhos ou nenhum familiar que pudesse chorar sua morte, ficando então a propriedade em poder do banco para ser vendida.

Morrer sozinho sem ninguém para jogar flores em seu túmulo e nem para rezar um ultimo terço em sua memória devia ser horrível.
Andamos um bocado olhando cada fresta, cada ruína, cada lugar escondido e Josué parecia uma criança, apesar dos seus 17 anos. Descobríamos um mundo novo e diferente daquele em que estávamos acostumados até então.
Haviam vários casebres de madeiras ruindo, poços abandonados,lápides e moinhos entre outras coisas curiosas.

O tempo parecia passar mais rápido daqui de cima estávamos longe de casa.Eu a via lá embaixo, no meio das árvores de copas altas, seu telhado vermelho se sobressaindo com a chaminé fumegante.
Chegamos a uma espécie de galpão grande, cheio de buracos, onde fomos nos proteger da chuva forte que começava a cair fazendo uma barulheira no telhado de zinco.

E já começava a esfriar.
Já passava das cinco e o céu havia escurecido com as nuvens negras e carregadas.O aguaceiro formou grandes poças e o barulho nas telhas era ensurdecedor.
Peguei um caixote de madeira e me sentei a espera do final da tempestade, estava molhada e com muito frio e tudo o que eu queria era um bom copo de leite quente e roupas secas, mas cabia agora esperar.

-A mamãe deve estar preocupada.- disse Josué olhando por um buraco na parede.
-Preocupada? Ela vai nos matar!- disse Josué, agora parecendo mais preocupado ainda.
De repente vejo uma sombra furtiva no fundo do galpão e apesar da escuridão causada pelo tempo havia uma tênue claridade vinda dos buracos do teto e das paredes. Forcei a vista e fiquei perplexa quando vi uma figura pequenina. Uma não, duas meninas.
Era o que parecia, apesar da confusão tinham os cabelos negros escorridos até os ombros, deviam ter uns 3 ou 4 anos no máximo. Mirradinhas e descalças apesar do frio que fazia àquela hora, pulavam nas poças como se pulassem amarelinha. Josué não acreditava no que via.

-Que espécie de mãe deixaria crianças sozinhas assim no frio, na chuva. Será que mora alguém nos fundos dessa tapera?
-Não sei, devem ser vizinhos.- respondi sem conseguir tirar os olhos daquelas figuras que se aproximavam devagar, sempre pulando e confesso que estava morrendo de medo e mal conseguia me mexer.
Era um temor inexplicável.

Um raio caiu muito perto me assustando enquanto Josué se aproximava de uma delas a fim de perguntar o que faziam ali.
Olhei para o lado e lá estava ela.
Como teria aproximado tão rápido perto de mim sendo que estava tão distante quase no fundo do galpão chegava a sentir a respiração pensei em tocá-la, mas ela se virou, nessa hora Josué gritou e foi um grito de pavor que nunca mais vou esquecer.


-Os olhos!!! Os olhos!!! –ele gritava.

Os olhos eram apenas órbitas vazias escuras e carcomidas por vermes. A boca era enrugada, meio que retorcida e corroída como um buraco negro sem fundo de onde vinha um cheiro pútrido de mil sepulturas.
Os cabelos soltavam-se do couro cabeludo aos montes e pústulas de pus e sangue escorriam dos orifícios.

Saímos dali correndo sem olhar pra traz ou se preocupar com a chuva ou os raios, quando chegamos em casa totalmente encharcados não conseguíamos dizer uma só palavra para minha mãe já estava se descabelando de preocupação.
Só depois de uma boa xícara de chá bem quente e roupas secas, ai então contamos o que havia acontecido.
Minha mãe ouviu tudo horrorizada, foi ai que a vizinha uma senhora que cuidava da propriedade já há vários anos nos disse que aquele galpão era mal assombrado, pois ali naquele terreno eram feitos sacrifícios humanos em rituais de magia negra e as vitimas eram todas crianças da região que desapareciam. Algumas os ossos tinham sido encontrados ao redor do galpão, mas outras estavam perdidos em algum lugar.

Ela nos disse que teríamos de voltar lá e dar nosso perdão a elas e abençoá-las, pois estavam sem luz.
Mas e a coragem de passar por tudo aquilo de novo, onde estava???


Se ainda estão lá?...Não sei...

Talvez esperando uma próxima chuva!!!

( R.Raven☥ )

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

~# ☥ A TRISTE SORTE DE EZEQUIEL MORAES ☥#~

*CLICK* Encontrado estranho animal nas florestas da áfrica Central. De acordo com as testemunhas era um mamífero quadrúpede revestido de escamas e com as patas dianteiras de leão e as traseiras de ave. A cabeça era de réptil como uma cobra ou lagarto e a língua, bifurcada...

*CLICK* O zoólogo e professor de História Natural T. Anderson e o explorador Paul Sladen descobriram um animal não catalogado na história da zoologia. Os nativos da área o chamam de “Olitau”; um réptil voador de coloração preta e dentes serrilhados como os de um crocodilo. Voava baixo e numa rapidez espantosa...
O dedo indicador de Ezequiel apertava nervosamente o botão do mouse e uma diversidade de imagens banhavam o rosto daquele velho homem, refletindo vez por outra a tela do computador nas lentes dos seus óculos, que teimavam em escorregar pelo nariz redondo e suado.

*CLICK* Avistado animal estranho nas encostas alpinas da Suíça, da Baviera e da Áustria. Os habitantes o conhecem por “Tatzelwurm”. Media cerca de sessenta a noventa centímetros de comprimento...*CLICK* ...de trinta anos foi avistado animal semelhante, de sessenta centímetros a um metro. Fusiforme e alongado...
-“Eu sei que você está envolvido nisso. Eu sei”! - Ezequiel Moraes era um velho arqueólogo que há vinte anos tenta provar para a humanidade o impossível. A veracidade sobre a existência do livro-pai dos livros. O legendário Necronomicon.

*CLICK* ... queda de pedaços de carne em Kentucky – 1876... *CLICK*...chuva de sangue em Granada – 1944... *CLICK*...pela noite que durou dois dias no México – Cuauhtitlan... *CLICK* *CLICK* *CLICK* *CLICK*... E as imagens banharam a face carrancuda de Ezequiel por toda a madrugada.

A manhã chegara e o sol esquentava a nuca do velho, que dormia debruçado na escrivaninha do escritório. Ao acordar, Ezequiel prepara-se para tomar o seu freqüente desjejum: um cigarro meio torto que dividiu com ele a fatídica noite e um copo de café frio.

Acendeu. Deu uma tragada. Baforou-a. “Sapos de duas cabeças no Kansas/aranhas aladas em New Yorkshire/ chuva de peixes no Saara...” - Onde está você, seu filho da puta!!!

Resolveu sair. Andando pela rua tinha o vício de escutar a conversa dos demais, preguiçosos em suas caminhadas pela manhã matutina e fria de outubro.

- ...das fazendas. Não se tem mais segurança nem na roça, compadre. No curral do Marcelino foram duas vacas premiadas. Se sangue nenhum!”. - escarra e cospe.

- Tão “falano” que é o tal do chupacabra, Zé! - faz uma careta e o sinal da cruz.

Ezequiel passa pelos dois caipiras e não consegue segurar uma expressão de asco. “Ignorantes! Só eu sei a verdade! - murmura baixinho, arremessando sua segunda guimba de cigarro pelo chão.

E um mês se passou se passou exatamente assim. Clique. Reflexo na cara, sono mal dormido, despertador solar, cigarro amassado e mais resmungos pelas ruas até que certo dia encontra um novo personagem entre suas caminhadas. Era um mendigo velho e maltrapilho, rodeado por pessoas e formigas que entravam e saíam pela sua boca e nariz. Pelo que parecia havia morrido em conseqüência do frio da madrugada.

Ezequiel nunca foi de rodear ”presuntos” ou acidentes, mas alguma coisa naquele homem (utilizando o termo “homem” somente para figuração, pois eu rosto contorcido e surrado pelo frio deixava-o longe de qualquer representação da espécie) chamou a sua atenção. No bolso do seu paletó encardido estava um pequeno disquete com a caixa protetora ainda lacrada.

-Por que não? – pensou, e como o vento agarrou o objeto sem que os populares notassem sua ação.

Chegando em casa a sua expectativa era enorme. Entrou como um raio no escritório com o disquete numa mão e meia garrafa de martini na outra. *CLICK*. A pequena tela de LCD lambia novamente o seu rosto que, ao invés de sisudo e preocupado, estava radiante e abobalhado. “Eu tenho certeza que agora finalmente te peguei!”

Um minuto. Dois. Cinco minutos e nada ocorria. A face do velho ia murchando novamente como uma flor no inverno até que de repente...o contato...

“pág. n° 104 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 15/06/1986.

Muito me foi passado nestes anos de pesquisa sobre o livro do árabe louco Abdul Al-Hazed (a face de Ezequiel brilhou como uma supernova), mas temo em pagar pelos ensinamentos. A quem estiver lendo este documento peço que delete toda a informação arquivada e livre sua alma imediat... *CLICK*...

*CLICK*... pág n° 106 do diário do Dr. Carlos Albuquerque – 17/06/1986.

TÍTULO: Necronomicon ET Mortis
OPÇÃO: Invocatio
ACESSAR: Sim / Não
SIM
Ezequiel ria como bobo até formar uma pequena espuma no canto de sua boca. “Desgraçado! Eu sabia que você iria se apresentar a mim, eu sabia! Eu sabia seu merda...”.

Excitado e trêmulo, acendia um cigarro atrás do outro e bebia seu terceiro Martini.

-A academia vai ver só. Vão ter que comer merda pra poderem ter acesso a esta belezura! Ah, se vão!

Invocações, litanias, gravuras, e a mente enevoada do pesquisador devorava páginas e páginas até que uma em especial lhe chamou a atenção. R’LYEH CTHULHU. Era uma página meio apagada devido a um mau funcionamento do scanner e com certeza tinha como fonte o próprio Necronomicon. No canto superior estava um pequeno texto, de escrita cuneiforme e possivelmente de origem sumeriana. Ezequiel não pensou duas vezes e acessou seu Web Translate para converter o artefato numa linguagem mais próxima à da humana.

Q’OND MTALLY DGLLT’A
BGOLLI XT’A AML’TA IIB
R’LYEH CTHULHU AML’TA IIB
AML’TA IIB CTHULHU
AML’TA IIB B’GHOLLEÉ
AML’TA IIB QSATDO-N
AML’TA IIB

O velho ficou pensando em como seria a garganta que pronunciaria aquelas palavras com precisão e o que elas significavam realmente. Leva então o copo de Martini a boca e nota que está vazio, assim como a garrafa. Ezequiel então se levanta e segue, pensativo, em direção da sala para preparar outra bebida.

Q’OND MTALLY DGLLT’A – Ao voltar, sente uma estranha formicação nas pernas e, por instinto, levanta uma das barras de suas calças e grita... grita... grita...

Gritos.

Até a altura dos joelhos pústulas e chagas se abriam como pequenas bocas, vomitando a carne que se liquefazia em pus. BGOLLI XT’A AML’TA IIB

Entorpecido pela dor e pelo horror Ezequiel tenta correr, mas no terceiro passo sente sua tíbia romper-se com o peso do seu corpo e cai. O velho então tenta se arrastar, mas a dor que sente quando sua bacia descarnada raspa pelo assoalho é lacerante. R’LYEH CTHULHU AML’TA IIB

AML’TA IIB CTHULHU – As costelas entortam-se e enroscam no carpete enquanto as vértebras cervicais rolam pelo chão como dados mal jogados num jogo de azar. AML’TA IIB B’GHOLLEÉ

Os gritos do velho Ezequiel agora não passam de borbulhas e gorgolejar quando sente as falanges estatelarem com as quedas do úmero e do rádio. AML’TA IIB QSATDO-N

O show de horrores só terminou com o ríspido rolar de um crânio de órbitas vazias pelo chão da sala. Tudo era silêncio até que se ouvem passos pela casa vazia e uma grotesca figura que cuspia uma grande quantidade de formigas adentra no escritório. O mendigo sorri ao colocar o disquete no bolso e vai embora dando pouca ou quase nenhuma atenção a pilha de ossos secos daquilo que a poucos minutos atrás foi um homem.

*CLICK* BZZZZZZZZZZZZZZZZ... *CLICK*…*CLICK*…*CLICK*…*CLICK*...

Tradução concluída com sucesso:

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ATERRAI PORTENTOSAS RAÍZES
PRIMEVAS E NEGRAS E LIVRAI-NOS DA CARNE
ONDE CTHULHU DESCANSA, LIVRAI-NOS DA CARNE
LIVRAI-NOS DA CARNE, CTHULHU
LIVRAI-NOS DA CARNE, B’GHOLLEÉ
LIVRAI-NOS DA CARNE, QSATDO-N
LIVRAI-NOS DA CARNE...

(Iam Godoy)